PEDRO GOMES

Por Rodrigo Simas Aguiar

Reza a lenda que o nome da cidade de Pedro Gomes, nos campos de cerrado do Brasil Central, nasceu do grande feito de um jovem em busca da liberdade. No início do século XX nasceu o menino Pedro. De parto difícil, sua avó conta que a impaciência era sua marca registrada e desse mal, se é que isso é mal mesmo, Pedro já sofria antes mesmo de vir ao mundo. Nasceu de oito meses, num parto longo e doloroso. Nalguns momentos pensou-se que o pequenino Pedro seria outro natimorto.

Mas seu espírito era persistente e inquieto. Tinha fome de vida. Veio ao mundo mirradinho em sua condição de prematuro, mas cresceu saudável e esperto. Foi um daqueles garotos que pregava muitos sustos, não porque era malcriado, muito pelo contrário, era mesmo tímido, introspectivo. Mas tinha o gosto por buscar sempre novas metas: subir na velha mangueira mais alto do que no dia anterior, alcançar a outra curva da rua para no dia seguinte ir ainda mais longe, perambular pelas margens do córrego do Lava-Cabelo. E em suas aventuras também havia os pequenos acidentes e, consequentemente, a preocupação da mãe.

Enquanto crescia, mais se perguntava acerca do que havia mundo afora. Imaginava reinos do oriente, califas, sultões, príncipes e todas as histórias contidas nos livros e na sabedoria popular. Bastava olhar uma palmeira dançando ao sabor da leve brisa do anoitecer, tendo o céu azul-marinho por moldura e um fio de lua como adorno, que imagens do distante oriente saltavam em sua mente fértil e inquieta. Nas noites claras via figuras na face lunar, fantasiando, também, sobre os povos que poderiam morar por lá. Para Pedro, nada era distante demais ou demasiado difícil de fazer. Tudo, por mais complicado, era, na verdade, um teste de paciência, onde só os persistentes podem ter êxito e assim se distanciar dos acomodados.

Certa vez, no colégio, ouviu a professora falar de um tal de Ícaro. A escola era um luxo para poucos naquelas bandas distantes e sabia que nunca conseguiria mais do que o ensino fundamental. Para poder tirar o ensino médio, alguns meninos ingressavam em ordens religiosas em terras distantes dali. Pedro não queria este destino, tampouco almejava tornar-se outro trabalhador do campo, pois, por mais nobre que fosse tal profissão, não lhe parecia um futuro agradável.

– ‘Ícaro! Onde foi que ele falhou? Mas ele voou, ou seja, não falhou. Daria a vida pela experiência de voar. Ícaro Pedro, Pedro Ícaro, serei eu, Pedro Gomes, o Ícaro dos cerrados’.

Aquele pensamento se tornou uma obsessão, atormentando-o diuturnamente. Olhava as montanhas e se imaginava planando, para além delas, para além de sua terra, para além de todas as fronteiras. Os pássaros que cortavam os céus lhe pareciam os seres mais afortunados, uma obra-prima divina, a quem Deus revelara o melhor deste mundo. E desde a aula sobre o Ícaro, das distantes terras que ele sequer sabia se eram ou não reais, passou a observar os pássaros com suspiros filosóficos, absorto em pensamentos, ingressando mais e mais em seu reino singular.

As pessoas já não mais interessavam a Pedro. As falas lhe pareciam sons distorcidos, que ele sequer fazia esforço por desvendar. Eram como zumbidos, algo inconveniente que teimava persegui-lo. Todos notavam seu estado, algo um tanto autista, outro tanto disléxico, alguém para quem as linhas normais da humanidade pareciam demasiado tortas, desafiando-o a transpor as pautas, meras regras criadas por pessoas banais como forma de sustentar sua mediocridade autoritária. Ele, sem dúvida, não era um neurotípico.

E eis que Pedro voou. Muitas e muitas vezes em sua mente. Voar era o que lhe fazia feliz. Já não pensava em conhecer uma moça, casar, ter filhos, trabalho, mas sim em transpor fronteiras. Revelara uma vez seu sonho aos colegas, que riram copiosamente dos devaneios do Ícaro do Cerrado. Ter vergonha de seu projeto de liberdade era o que mais lhe enfurecia. Vergonha de não se contentar em reproduzir o trivial? Era inconcebível! Ainda assim, a vergonha era inevitável.

Pedro caminhava pela cidade de cabeça baixa, a exceção de quando admirava o voo das aves no céu ou contemplava as montanhas. Uns viam em Pedro um menino triste, afetado por sua própria genialidade e preso em seu mundo particular. Outros o tinham como um tolo, menino abobado e de ideias malucas. De todas as formas, os olhares já lhe eram pesados demais e os cochichos, demasiados sonoros. Aquela vida que levava em sua pequena cidade, perdida na vastidão do Centro do Brasil, lhe parecia não só enfadonha, mas abominável.

Foi numa manhã de sábado que Pedro decidiu voltar a ser ele mesmo. Perseverança e espírito indômito, atributos que o acompanhavam desde os primeiros minutos de sua vida na terra e que dos quais ele não abdicaria. Partiu para uma longa jornada em sua bicicleta velha, de corrente frouxa, observando as montanhas e estudando uma forma de voar para longe, para os califados de seus devaneios. Em suas fantasias, voava por sobre ilhas desertas, atravessava rios e mares, lugares distantes que só conhecia dos desenhos daqueles livros de geografia. Via tanto as montanhas verdejantes como as nevadas. Pedalava, sonhava, contemplava. Este era Pedro!

Depois de pouco mais de uma hora pedalando em sol escaldante, decidiu pousar à sombra de um Jatobá. À sua frente, apenas os campos viçosos e palmeiras de bacuri com suas folhas mexendo ao sabor da brisa fraca, que mal refrescava. Lembrou-se das histórias dos índios que faziam o telhado de suas casas com folhas de palmeiras e dos artesãos que delas faziam cestos e até chapéus. ‘O bacuri é tão resistente que dá até para fazer corda, rede e tudo o mais’ – dissera-lhe certa vez seu Noca, um senhor de idade que adorava contar estórias e o único que Pedro apreciava ouvir.

Foi ali, embaixo do Jatobá, que surgiu a ideia que mudaria seu destino. Pedalou como louco de volta para casa e se pôs a desenhar. Do papel amarelado brotava o projeto de sua vida. O Ícaro do Cerrado não faria suas asas de cera e penas, mas sim das folhas do bacuri. Passou a semana seguinte trabalhando em sua invenção, colhendo ramagens e usando galhos talhados, bem amarrados, no fabrico da estrutura de suas asas. Sobre tal estrutura, a palha do bacuri foi firmemente trançada.

Lentamente suas asas tomaram forma. Eram longas e imponentes, com o tom bege da palha seca trançada. As pessoas olhavam-no com admiração, mas já estavam acostumadas com as estranhezas de Pedro. De sua habilidade e intelecto nasciam as asas que o tirariam de tão tediosa vida. Eram as asas de sua liberdade.

Decidiu que seu voo de liberdade seria no sábado seguinte. Quando o dia chegou, amarrou firmemente as asas, fechadas, em suas costas e pedalou por mais de uma hora. Ao pé do grande morro abandonou a bicicleta e seguiu a pé até o mirante de onde se via toda a planície e a vila, com suas casas minúsculas. Sentou-se e, por algum tempo, admirou a paisagem. Sonhou uma vez mais com o mundo que o esperava para além das montanhas e depois das fronteiras. Foi seu último voo sem asas. Então desdobrou e montou suas asas, atou-as firmemente às costas e à cintura. Tinha uma estrutura rígida, como as asas de um avião, que o permitiriam planar. Precisaria aproveitar o vento para subir e ganhar velocidade, como as aves faziam com suas asas abertas.

Recuou diante do abismo, quase vinte passos. Depois iniciou uma corrida, um tanto lenta, outro tanto desajeitada. Quando já via a ‘pista’ terminar, deu um último passo largo e saltou sobre o abismo, com o corpo na horizontal, de asas abertas. E por vários minutos Pedro planou! Viu sua cidade rodar abaixo de si, agora diminuta e insignificante. Circulava a montanha, com um vento forte lavando seu rosto e remexendo seus cabelos. Sentiu-se como àqueles pássaros afortunados. Este era o mundo de Pedro, o céu, o vento, planando pelo infinito. Pela primeira vez na vida estava verdadeiramente contente.

Tanto da cidade como das roças, pessoas testemunharam o grande feito de Pedro. Nunca imaginaram que seria capaz de colocar tal plano em prática. Era loucura! Que coragem! Os que riram dele, assim como os que lhe tinham pena, agora olhavam para o céu, embasbacados. Todos, naqueles breves minutos, respeitaram Pedro. Mais: tiveram orgulho dele. E Pedro planava…

Porém, tal e qual o Ícaro original, suas asas de súbito falharam. Parte do trançado de bacuri cedeu. Um buraco abriu-se na asa esquerda e Pedro entrou em queda livre. Perfilando um parafuso mortal, rapidamente perdeu altitude. As pessoas que o observavam estavam agora horrorizadas. Pedro caia. Tentou planar até o rio a fim de encontrar uma forma de amortecer a queda nas águas que corriam. Caiu no rio, mas da altura que despencara, sua aterrissagem foi mortal. Num estrondo seco, as asas se partiram. Os que primeiro chegaram à cabeceira do rio encontraram o corpo de Pedro Gomes, preso à margem, já sem vida.

O rio, após o trágico evento, passou a ser chamado de Pedro Gomes, assim como a cidade. Pedro, o Ícaro do cerrado, seria eternamente lembrado, sempre que alguém falasse daquele rio que circundava a pequena cidade do interior do Centro-Oeste. O enterro de Pedro Gomes foi comovente. Sua mãe estava irreconhecível, pois apesar da estranheza do filho, amava-o de todo o coração. Anjo de asas quebradas, mas de espírito inteiro, agora voava pelo infinito, sendo agora aquilo que ele sempre buscou: livre.

Há quem afirme que todos os anos, no dia do aniversário de seu nascimento, ao entardecer, Pedro Gomes cruza os céus da pequena cidade, planando igual como quando saltou da montanha, pairando livre e formoso como uma ave.

Voe Pedro! Voe para as terras estranhas do oriente, plane sobre os mares e os rios, mergulhe nas estrelas, jovem anjo de asas quebradas.

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