Arqueologia e Antropologia

Antropologia

Para entender melhor a antropologia, é preciso recorrer à etimologia: a palavra “Antropologia” vem do grego Anthropos = homem e Logia = estudo. Assim, a Antropologia é, literalmente, o estudo do homem (enquanto espécie, Homo sapiens).

As diferenças entre a antropologia e as demais disciplinas dedicadas ao estudo do homem vão se afirmando a partir do método empregado pelo antropólogo em seus estudos. A proposta da antropologia é entender as sociedades a partir de um olhar interior, ou seja, o conhecimento é gerado pelos “olhos” do outro. Para tanto, não se aplicam questionários ou roteiros, mas se estabelecem diálogos com os indivíduos do grupo estudado, o que requer um trabalho de campo prolongado. Estas observações de campo vão integrar aquilo a que chamamos etnografia. A eficácia neste sistema de investigação tem levado a antropologia a outros campos, antes tão distantes das ciências humanas puras.

Cultura como objeto da antropologia
(…)cultura se refere ao conjunto de pautas aprendidas e transmitidas, sobre as quais toda sociedade está alicerçada e fundamenta sua vivência social. A cultura pode ser transmitida de geração em geração, quando os mais velhos se encarregam de incitar os mais jovens a seguir padrões de comportamento, num processo que vem desde o nascimento e que na antropologia denominamos endoculturação. A cultura também pode ser ampliada ou modificada por meio de aspectos incorporados de outras sociedades e esse processo de transmissão de pautas culturais de uma sociedade para outra recebe o nome de difusão cultural. Dessa forma, organizamos todos os conhecimentos herdados de nossos ancestrais e adquiridos ao longo de nossa vida. Mas a cultura é dinâmica em sua essência e em razão disso não se pode esperar que as sociedades humanas permaneçam inalteradas. Isso garante que a rendeira tradicional utilize métodos seculares para compor seus bordados, mas que não abra mão da internet para divulgar o artesanato de suas comunidades.

(…)A identidade de um povo é formada por elementos culturais, materiais e imateriais, que garantem a coesão social e permitem que o universo dos atores sociais se equilibre dentro de bases ideológicas e representações acerca do passado e do futuro. Os elementos culturais herdados de nossos ancestrais são classificados como patrimônio cultural. E na qualidade de patrimônio, além de herdado será também legado às gerações futuras, cabendo a nós, que vivenciamos o presente, estabelecer uma correta gestão de nossos bens culturais.

Mais em:
AGUIAR, R. L. S. (2015). Antropologia Sociocultural. Série Cadernos Acadêmicos. Dourados: Editora da UFGD.

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Arqueologia

Existem incontáveis obras que buscam definir com clareza o que é arqueologia. Muito do que imaginamos ser a arqueologia vem de filmes e séries de televisão. E não podemos esquecer da confusão recorrente com o estudo dos fósseis. Nesta tarefa de tecer uma definição, podemos afirmar que a arqueologia envolve três elementos essenciais: passado, objetos e sociedades humanas. (…)

Objetos possuem história: são criados em uma determinada sociedade para um dado fim e, ao trocar de mãos, assumem novos significados. Ou seja, podemos dizer que objetos possuem sua biografia . A tarefa principal do arqueólogo é usar diversos meios/técnicas para traçar esta história dos objetos, permitindo interpretar sua função em dada sociedade. A produção de um artefato envolve todo um contexto cultural, seguindo regras estabelecidas pela sociedade que a criou. (…)

A primeira etapa de pesquisa arqueológica está na recolha das evidências nos espaços que serviram outrora de habitação para as populações pretéritas, locais estes que recebem a denominação de sítios arqueológicos. Esta recolha se dá através da escavação arqueológica, uma operação que requer controle total do espaço e da remoção das camadas ocupacionais. O sítio
arqueológico é um espaço singular, que representa um momento específico de vida de uma população única: lá pessoas que já se foram há muito tempo levaram suas vidas – amaram, casaram, brigaram, tiveram filhos, rezaram para seus deuses, compartilharam alegrias e tiveram seus dissabores. Tudo o que nos resta deles são as evidências que estão em meio aos estratos arqueológicos. Ao escavar, o arqueólogo está ao mesmo tempo destruindo aquele espaço, como
um livro muito danificado, cujas páginas se desfazem após a leitura. Por isso mesmo, a escavação arqueológica precisa ser feita com absoluto controle e por profissionais altamente qualificados. Uma vez escavado o sítio, não há mais volta. (…)

Ainda que a escavação arqueológica seja a atividade mais icônica ligada à imagem do arqueólogo, a maior parte do labor se dá mesmo é no laboratório. Todas as evidências coletadas no campo são acondicionadas e enviadas a um laboratório de arqueologia, onde serão processadas, catalogadas e analisadas. Como cientistas forenses, os arqueólogos submetem os achados ao escrutínio, em busca de ecos que nos contem a história de um passado há muito perdido. E aqui voltamos à ideia de objetos como entidades, com suas biografias, criados sob as regras de uma cultura para uma finalidade específica. Antes “mortos”, através da arqueologia estes objetos passam agora a assumir novos contextos, em museus e coleções arqueológicas, recebendo novas camadas de significado e ajudando-nos a entender que a diversidade é algo antigo, que remonta à aurora de nossa espécie.

Trechos do livro:
AGUIAR, R. L. S. (2024). Os Sambaquis e a pré-história do litoral de Santa Catarina. Florianópolis: IHGSC.


Visite: Arte Rupestre: conceitos introdutórios


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Pré-história, arte rupestre, arqueologia. Por que usamos estes termos para se referir ao estudo do passado distante da humanidade?

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Por que o uso do termo pré-história? Existe uma longa discussão sobre a propriedade ou impropriedade do termo. Nos moldes clássicos, a história definiu que seu campo de estudo começa, precisamente, quando do surgimento da escrita. A história estuda os povos a partir de seus documentos escritos, com isso, todo o período que antecede o surgimento da escrita passou a ser chamado de pré-história. Há quem diga que o termo é pejorativo, pois, em tese, negaria uma história aos povos agrafos. Claro que uma avaliação superficial pode sugerir que se trata de uma atitude excludente dos historiadores. Contudo, honestamente, como alguém que transitou por ambos os espaços – arqueologia e história – devo discordar. O que a história fez, como ciência humana, foi definir com clareza seu campo de ação. Esta escolha conceitual nunca envolveu uma exclusão de povos ágrafos dos anais da história, ou qualquer atitude de cunho evolucionista. A prova disso é que nas faculdades europeias os departamentos de pré-história e arqueologia estão ligados às faculdades de história. Ou seja, a pré-história é tida, lá, como uma unidade importante no estudo da epopeia humana sobre o globo terrestre. Por fim, cabe ressaltar que o termo “pré-história” é empregado para delimitar todo um campo de estudos, sendo já consagrado entre seus pesquisadores, tanto em publicações como em congressos. Desta forma, reivindicar a escolha de outro termo para definir nosso campo de estudo é apenas se agarrar uma retórica simplista, pouco produtiva e nada construtiva. Por isso, não há dúvidas, o termo adequado é sim pré-história.
(este é um trecho de Arqueologia Pré-histórica – obra registrada – sua cópia ipsis litteris, sem a citação dos devidos créditos, representa crime de plagio)
Como citar este trecho:
AGUIAR, R. L. S. (2025). Arqueologia Pré-histórica, volume 1: Arte Rupestre. São Paulo: Ipê das Letras.

Por que o uso do termo Arte Rupestre?

Todavia, o conceito mais problemático é sim o de arte. Por arte entendemos todo um conjunto de ideias e intuições cuja origem se dá nos conceitos da sociedade ocidental industrializada. Nesta perspectiva, uma obra de arte é estética, nasce do gênio criador do artista, por isso está vinculada à autoria, para ter valor não pode ser cópia de outras peças análogas e sua ligação com o uso prático é tênue. Sua concepção, antes de tudo, é para o deleite estético. A antropologia desconstruiu este conceito, provando que se trata de uma noção excludente e que não reconhece as práticas estéticas de sociedades tradicionais como arte. O termo “artesanato” carrega consigo esta carga de exclusão: às formas mais étnicas, onde o autor não é o foco principal, mas sim a manutenção de protocolos étnicos que regem a produção artística, é negado o emprego da palavra arte, sendo esta substituída por artesanato. Mas foi a partir da antropologia que se reconheceu que a “arte” é bem mais abrangente. Arte vai desde as pinturas de Caravaggio em um grande museu da Europa até as peças de cerâmica adornada produzidas por uma etnia indígena, todas igualmente importantes.

Esta nova versão de arte proposta pela antropologia afeta também a nossa noção de arte rupestre. Antes, havia quem dissesse que o termo arte seria inapropriado para pinturas e gravuras da pré-história por fazer alusão a um fenômeno de arte pela arte, algo como produto do ócio primitivo, excluindo assim todas as manifestações de agência que esta forma estética exerceria sobre as pessoas que as produziram. Hoje, entendemos que o termo arte é mais do que apropriado, pois grafismos rupestres não são só operação mágica, forma de comunicação, entidade viva nos processos rituais ou ainda expressões estéticas, mas todas estas coisas juntas. São expressões estéticas vestidas de etnicidade e potenciais actantes, agentes que participavam, de alguma forma, da vida social.
(este é um trecho de Arqueologia Pré-histórica – obra registrada – sua cópia ipsis litteris, sem a citação dos devidos créditos, representa crime de plagio)
Como citar este trecho:
AGUIAR, R. L. S. (2025). Arqueologia Pré-histórica, volume 1: Arte Rupestre. São Paulo: Ipê das Letras.






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