Texto original de 2012 que transcrevo aqui:
Arte Rupestre, conceito: Denominamos arte rupestre as pinturas e gravuras feitas sobre paredões rochosos por populações da pré-história. Os arqueólogos dividem a arte rupestre em dois grupos, de acordo com a tecnologia empregada: as pinturas rupestres são chamadas de “pictoglifos” e as gravuras de “petroglifos”. Esses artistas da pré-história usavam diferentes técnicas para efetuar seus desenhos, seja extraindo pigmentos de minerais ou percutindo uma pedra contra um paredão rochoso. As pinturas são classificadas em duas categorias: as monocrômicas, onde os desenhos são representados em uma única tonalidade; e as policrômicas, que apresentam a combinação de duas ou mais cores na composição do grafismo rupestre. Já entre as gravuras há duas modalidades: as picoteadas, obtidas por percussão; e as polidas, feitas por fricção.
A arte rupestre é um fascinante campo de estudo da arqueologia. Sempre nos vemos intrigados pelos belos símbolos pintados ou gravados, tentando imaginar que mensagens estariam nos transmitindo. Nas palestras que ministrei sobre o tema, sempre busquei explicar que a arte rupestre não é somente arte, pois sua função ia muito além da estética. Apesar de muito belos, os grafismos rupestres têm a propriedade de transmitir mensagens, sendo quase uma forma de escrita. Outra possível função da arte rupestre estaria associada a práticas mágico-religiosas. Diante destas informações surge sempre a mesma pergunta: é possível “traduzir” a arte rupestre?
Uma tradução dos grafismos rupestres é impossível, pois para tanto seria necessário conhecer com precisão os códigos que regem a composição destes símbolos. Ou seja, na medida em que lemos um texto (como esse que estamos a ler) o que o nosso cérebro faz é traduzir em uma fração de segundos os inúmeros símbolos ali expressos, associando os ícones gráficos com seus códigos – ou seja, é assim que sabemos que determinado símbolo corresponde a letra “A”, por exemplo.
No caso da arte rupestre temos o desenho, ou seja, o ícone gráfico, mas desconhecemos os códigos simbólicos usados pelos autores para lhe atribuir significado. Por outro lado, isso não quer dizer que não seja possível obter pistas da função que estes símbolos tinham para aquelas populações pré-históricas. Se uma “tradução” é praticamente impossível, o que o arqueólogo faz é chegar a uma proposta de quais funções teriam estes grafismos, obtendo um sistema mais genérico de interpretação da arte rupestre.
Diante disso, entende-se a arte rupestre como o registro físico da esfera simbólica e ritualística daquelas populações que ocuparam uma determinada região há milênios. Não temos sua tradução, mas sabemos que se trata de um campo simbólico porque são desenhos que representam idéias e valores daquelas sociedades, podendo ocupar papel também nos rituais – como os de iniciação ou de culto.

Para buscar linhas de interpretação o arqueólogo deve estudar o ambiente local e pensar como se dava a relação dos homens da pré-histórica com esse entorno. Neste trabalho, o pesquisador deve partir do inventário da arte rupestre e, em segunda instância, da análise dos vestígios arqueológicos levantados em escavações tradicionais.
Há muito a arqueologia discute a possibilidade de que a arte rupestre tenha um valor religioso, mágico. Os símbolos rupestres poderiam ser uma espécie de magia simpática relacionada com caça – onde o caçador primeiro captura a essência do animal cobiçado por meio de sua representação nas paredes de pedra, o que traria êxito na caçada. Em outros casos, os desenhos rupestres estariam associados a formas de culto estelar.
Com base na análise dos elementos e suas repetições, o arqueólogo francês André Leroi-Gourhan verificou que certos povos que ocuparam determinada região da Europa na era paleolítica projetaram um pensamento estruturado nas paredes das grutas, onde os símbolos estariam agrupados em setores obedecendo a regras de associações. O trabalho de Gourhan demonstrou que, a partir do estudo da arte rupestre, é possível determinar aspectos da cultura não material dos povos da pré-história, o que seria impossível apenas com a tradicional escavação arqueológica.

No Brasil, os arqueólogos promovem o ordenamento da arte rupestre em chaves de classificação, denominadas tradições. As diferentes manifestações iconográficas são ordenadas respeitando semelhanças no estilo e na técnica de elaboração. Essas chaves classificatórias permitem que todos os arqueólogos “falem uma mesma língua”. As principais tradições arqueológicas propostas para o ordenamento da arte rupestre no Brasil são as seguintes: Tradição Agreste, Tradição Nordeste, Tradição Planalto, Tradição São Francisco, Tradição Geométrica, Tradição Litorânea, Tradição Meridional e Tradição Amazônica. Contudo, inúmeras particularidades registradas em nível regional geraram diversas subdivisões.
A partir das chaves de classificação é possível inserir o material rupestre levantado em um contexto mais amplo, de caráter nacional. As características estilísticas podem ser compartilhadas por diferentes grupos étnicos, assim sendo, as classificações não são recursos para a busca de uma filiação étnica.

A arqueologia aparece como ciência que busca compreender o passado humano pelos restos materiais. O arqueólogo não é um viajante do tempo, ou seja, o passado está perdido e não é possível recriá-lo. O que o arqueólogo faz é interpretar como a vida poderia ter sido no passado, tomando por base as evidências materiais levantadas em sua pesquisa. Assim, é possível criar um quadro geral da vida dos povos. A arqueologia divide-se em muitos campos, sendo a arte rupestre um campo especializado dentro da arqueologia. Como não podemos decifrar com precisão os desenhos, é fundamental estar atento às técnicas de produção. Ciente disso, o arqueólogo registra informações diversas sobre a arte rupestre, como estilo, maneira de pintar ou gravar, largura dos sulcos ou linhas, tipos de associações de desenhos, fontes de água mais próximas, e assim por diante. Essas informações, quando combinadas a outras, vindas de escavações arqueológicas tradicionais, auxiliarão na composição do contexto em que a arte rupestre está inserida.
Fotos e texto de Rodrigo Simas Aguiar – proibida a reprodução sem citar devidamente a fonte.
Como citar este texto:
AGUIAR, R. L. S. (2012). Entendendo a arte rupestre: conceitos e funções. Disponível em: https://rodrigosimasaguiar.wordpress.com/arte-rupestre-uma-introducao
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Por que o uso do termo pré-história? Existe uma longa discussão sobre a propriedade ou impropriedade do termo. Nos moldes clássicos, a história definiu que seu campo de estudo começa, precisamente, quando do surgimento da escrita. A história estuda os povos a partir de seus documentos escritos, com isso, todo o período que antecede o surgimento da escrita passou a ser chamado de pré-história. Há quem diga que o termo é pejorativo, pois, em tese, negaria uma história aos povos agrafos. Claro que uma avaliação superficial pode sugerir que se trata de uma atitude excludente dos historiadores. Contudo, honestamente, como alguém que transitou por ambos os espaços – arqueologia e história – devo discordar. O que a história fez, como ciência humana, foi definir com clareza seu campo de ação. Esta escolha conceitual nunca envolveu uma exclusão de povos ágrafos dos anais da história, ou qualquer atitude de cunho evolucionista. A prova disso é que nas faculdades europeias os departamentos de pré-história e arqueologia estão ligados às faculdades de história. Ou seja, a pré-história é tida, lá, como uma unidade importante no estudo da epopeia humana sobre o globo terrestre. Por fim, cabe ressaltar que o termo “pré-história” é empregado para delimitar todo um campo de estudos, sendo já consagrado entre seus pesquisadores, tanto em publicações como em congressos. Desta forma, reivindicar a escolha de outro termo para definir nosso campo de estudo é apenas se agarrar uma retórica simplista, pouco produtiva e nada construtiva. Por isso, não há dúvidas, o termo adequado é sim pré-história.
(este é um trecho de Arqueologia Pré-histórica – obra registrada – sua cópia ipsis litteris, sem a citação dos devidos créditos, representa crime de plagio)
Como citar este trecho:
AGUIAR, R. L. S. (2025). Arqueologia Pré-histórica, volume 1: Arte Rupestre. São Paulo/Lisboa: Ipê das Letras.
Por que o uso do termo Arte Rupestre?
Todavia, o conceito mais problemático é sim o de arte. Por arte entendemos todo um conjunto de ideias e intuições cuja origem se dá nos conceitos da sociedade ocidental industrializada. Nesta perspectiva, uma obra de arte é estética, nasce do gênio criador do artista, por isso está vinculada à autoria, para ter valor não pode ser cópia de outras peças análogas e sua ligação com o uso prático é tênue. Sua concepção, antes de tudo, é para o deleite estético. A antropologia desconstruiu este conceito, provando que se trata de uma noção excludente e que não reconhece as práticas estéticas de sociedades tradicionais como arte. O termo “artesanato” carrega consigo esta carga de exclusão: às formas mais étnicas, onde o autor não é o foco principal, mas sim a manutenção de protocolos étnicos que regem a produção artística, é negado o emprego da palavra arte, sendo esta substituída por artesanato. Mas foi a partir da antropologia que se reconheceu que a “arte” é bem mais abrangente. Arte vai desde as pinturas de Caravaggio em um grande museu da Europa até as peças de cerâmica adornada produzidas por uma etnia indígena, todas igualmente importantes.
Esta nova versão de arte proposta pela antropologia afeta também a nossa noção de arte rupestre. Antes, havia quem dissesse que o termo arte seria inapropriado para pinturas e gravuras da pré-história por fazer alusão a um fenômeno de arte pela arte, algo como produto do ócio primitivo, excluindo assim todas as manifestações de agência que esta forma estética exerceria sobre as pessoas que as produziram. Hoje, entendemos que o termo arte é mais do que apropriado, pois grafismos rupestres não são só operação mágica, forma de comunicação, entidade viva nos processos rituais ou ainda expressões estéticas, mas todas estas coisas juntas. São expressões estéticas vestidas de etnicidade e potenciais actantes, agentes que participavam, de alguma forma, da vida social.
(este é um trecho de Arqueologia Pré-histórica – obra registrada – sua cópia ipsis litteris, sem a citação dos devidos créditos, representa crime de plagio)
Como citar este trecho:
AGUIAR, R. L. S. (2025). Arqueologia Pré-histórica, volume 1: Arte Rupestre. São Paulo/Lisboa: Ipê das Letras.
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Arqueologia Pré-histórica – Volume 1: Arte Rupestre
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