Arte Rupestre na Ilha de Santa Catarina

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O livro Arte Rupestre na Ilha de Santa Catarina, de Rodrigo Simas Aguiar, constitui uma importante obra de divulgação científica voltada à arqueologia pré-histórica do litoral catarinense, reunindo pesquisa acadêmica, educação patrimonial e reflexão antropológica em linguagem acessível. Resultado da revisão e atualização de investigações iniciadas pelo autor ainda na graduação em História pela Universidade Federal de Santa Catarina, o livro busca aproximar universidade e sociedade, suprindo a carência de materiais didáticos acessíveis sobre arte rupestre na Ilha de Santa Catarina.

A obra inicia contextualizando a dimensão simbólica e cultural da Ilha de Santa Catarina, relacionando paisagem, memória, folclore e arqueologia. Florianópolis é apresentada não apenas como espaço turístico contemporâneo, mas como território marcado por sucessivas camadas históricas e imaginárias, desde as narrativas populares das “bruxas” eternizadas por Franklin Cascaes até os vestígios deixados pelos povos originários que habitaram a região há milhares de anos. O autor resgata a antiga ocupação indígena da ilha, destacando sambaquieiros, grupos Jê e populações guarani como protagonistas da longa trajetória humana no litoral catarinense.

No plano conceitual, o livro discute a arte rupestre como uma das primeiras grandes manifestações simbólicas da humanidade. Rodrigo Simas Aguiar interpreta pinturas e gravuras rupestres não apenas como expressão estética, mas como instrumentos de comunicação e interação social, espiritual e cosmológica. A arte rupestre é entendida como registro material de universos simbólicos complexos, nos quais seres humanos, ambiente natural e dimensões metafísicas se articulavam profundamente. O texto dialoga com perspectivas antropológicas contemporâneas, afastando interpretações reducionistas e valorizando os significados culturais dessas representações.

Ao abordar os primeiros povoadores do litoral catarinense, a obra enfatiza a importância dos sambaquis e dos povos pescadores-caçadores-coletores especializados nos recursos marinhos. Esses grupos desenvolveram formas relativamente sedentárias de ocupação costeira e construíram monumentais montes de conchas utilizados tanto para habitação quanto para práticas rituais e funerárias. O autor descreve a sofisticação tecnológica dessas populações, evidenciada em artefatos líticos, anzóis de osso, adornos e zoólitos, reforçando a complexidade cultural dos sambaquieiros. Posteriormente, analisa a chegada dos grupos Itararé e Tupiguarani, relacionando-os às possíveis autorias dos petróglifos encontrados na ilha e adjacências.

O núcleo central do livro concentra-se na descrição e interpretação dos petróglifos da Ilha de Santa Catarina. O autor apresenta técnicas de produção das gravuras, sobretudo o polimento e o picoteamento, além de mapear os principais sítios arqueológicos da região, como Ilha do Campeche, Praia do Santinho, Ilha dos Corais e Galheta. As gravuras são predominantemente geométricas, compostas por círculos, linhas onduladas, pontos e formas abstratas, frequentemente associadas ao universo marítimo. Segundo a interpretação proposta, muitos desses grafismos representariam peixes, redes, ondas do mar e outros elementos vinculados à vida costeira e às cosmologias das populações pescadoras.

Ao final, o autor enfatiza a urgência da preservação desse patrimônio arqueológico diante da expansão urbana, do turismo predatório e do vandalismo. A obra assume, assim, forte caráter educativo e político, defendendo a divulgação científica e a educação patrimonial como instrumentos fundamentais para proteger os sítios rupestres e conscientizar a sociedade sobre o valor histórico e cultural dessas manifestações ancestrais. Mais do que um catálogo arqueológico, o livro transforma os petróglifos da Ilha de Santa Catarina em uma janela para compreender a relação entre memória, território, simbolismo e identidade cultural no litoral brasileiro.

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