A caixa de Pandora?

computação quântica e inteligência artificial

Rodrigo Simas Aguiar | 2021

Quem, como eu, pegou o período do grande salto da computação, sabe que se tornou testemunha ocular de uma revolução tecnológica cuja dimensão é quase tão espetacular quando a revolução industrial. Às vezes não notamos, pois tendemos a nos acostumar com as mudanças. O que num dia parece coisa de ficção científica, em seguida se incorpora à normalidade, ao modus vivendi. Mas a forma como os novos equipamentos revolucionaram a vida na aurora do século XXI é verdadeiramente estarrecedora. Devemos nos lembrar que diminutos dispositivos eletrônicos, como os smartphones e os smartwatchs, ou ainda aparatos ultrafinos com telas touch screen, todos capazes de acessar complexos ambientes digitais e ainda nos dar informações sobre qualquer coisa ao redor do mundo em frações de segundos via uma rede mundial, no início da década de 1990 eram apenas um sonho, cujos vislumbres ocorriam, quando muito, em filmes de ficção científica.

Meu primeiro contato com computador foi em um CP 500, isso lá por volta de 1988 ou 89. O redator de texto (assim como tudo) era acessado via DOS (tipo de sistema operacional) e a diversão ficava por conta de uns jogos em tela escura e linhas grosseiras. Depois, na Escola Técnica, tive ainda contato com as ferramentas Dbase e Turbo Pascal, onde uma página inteira de programação gerava uma ação simplíssima.

Quando ingressei na universidade, aprendi que existia, via computador, a possibilidade de escrever uma mensagem para alguém que vivia em outro país. Era a Bitnet. Naquela época, isso me parecia uma revolução. Mas foi em 1995 que tive contato com a verdadeira internet. Neste novo ambiente, era possível navegar por páginas de conteúdo. Lembrando que os primeiros trabalhos que digitei na universidade foram, ainda, em disco de 5,25″, um inferno porque qualquer impacto ou dobra no disco de embalagem flexível arruinava o conteúdo salvo. Melhorou um pouco com os discos de 3,5″, estes com invólucro mais rígido. A internet também chegou às residências via TCP/IP, uma conexão discada que acessava um provedor fazendo um ruído parecido com o do fax. Antes mesmo de me formar, em 1997, já tinha uma página da internet via GeoCities. Cheguei até a montar algumas páginas usando linguagem html.

A virada para o século XXI foi palco de um extraordinário avanço tecnológico. A velocidade da internet aumentou enormemente. Os computadores deram um salto em velocidade de processamento. A capacidade de armazenamento também evoluiu. Câmeras fotográficas passaram de meros 3,2 megapixels a 48 megapixels, e se incorporaram aos celulares, tornando-se onipresentes, uma espécie de “olho que tudo vê”. Contudo, a mais intrigante mudança ocorreu na forma como o “dinheiro” circula. Hoje, fortunas são construídas no universo digital, e não só pelas megacorporações de tecnologias, mas por um novo tipo de nicho, formado pelos youtubers e influenciadores digitais. Uma foto em determinadas redes sociais pode render milhares de reais e isso é a marca de um novo tipo de “mercado”, sem falar em outras escalas de valores do mundo cibernético, como as criptomoedas. 

Para alguém que teve sua “entrada” na formação e no mercado de trabalho no final do século XX, o admirável mundo novo é, realmente, algo que nos escapa. Os exemplos acima apenas permitem um parco vislumbre da transformação que o mundo sofreu ao longo das três últimas décadas. Em tempo cada vez mais curto, são lançados produtos mais e mais sofisticados. Não é difícil para o indivíduo se perder num mundo que se transforma tão rapidamente. Em vez de nos levar rumo a uma era melhor, onde desigualdade social, intolerância e guerras seriam coisas do passado, o extraordinário potencial das novas tecnologias é mal aproveitado pela maioria. Para uns poucos eleitos revela-se um paraíso, com avanços médicos, pouco trabalho e muito gozo. Mas a grande maioria vive presa a um ideal nada realista, na busca pela fatia de um bolo que é socialmente tóxico. Mesmo os que não aspiram este ideal, se intoxicam pela atmosfera generalizada sustentada, ostentada e objetivada por um coletivo de mesquinhez. A humanidade, por fim, obteve as ferramentas perfeitas para ascender ao paraíso, mas optou por acampar às portas do inferno.

Seguimos em busca da utopia futurista, onde a tecnologia nos libertará dos próprios demônios. Ainda assim, versões distópicas de um potencial futuro nos atormenta. Este pesadelo é abordado reiteradamente em livros e filmes. O medo do futuro e das tecnologias não é novo, podemos facilmente notar este dilema já no movimento de contracultura. Mas as novas roupagens aperfeiçoaram nossos medos. Em que momento este medo deixa de ser uma mera superstição para assumir requintes de profecia?

Estamos diante de uma Caixa de Pandora pós-moderna, mas sequer nos damos conta. A inspiração vem do mito original, da curiosa Pandora, primeira mulher, mandada à terra por Zeus e que trazia consigo um recipiente fechado, recebendo ordens de nunca abri-lo. Não se contendo, Pandora tentou espiar o conteúdo da “caixa” e deixou escapar todos os males da humanidade (as fúrias). O mito evoca o dilema humano na busca pelo poder, desejo, ascensão, elementos que podem ser maquiagens para uma Caixa de Pandora, em vias de trazer malefícios incomensuráveis.

A velocidade computacional está perto de chegar ao seu limite. Com os atuais aparatos tecnológicos é difícil superar a marca atingida. Mas os engenhos humanos exigem máquinas mais potentes para serem “rodados”. Em 2017, na Austrália, foi apresentada uma nova arquitetura que pode viabilizar a computação quântica. O computador quântico representará um salto computacional, pois similar ao dilema da dualidade onda-partícula, o bit quântico (Qubit) permite processar o 0 e o 1, não mais como possibilidades antagônicas, como na computação atual, mas como realidades simultâneas. Quem não se lembra de uma matéria jornalística sobre um computador quântico que foi capaz de realizar em 200 segundos uma operação que no computador convencional mais avançado do mundo levaria 10 mil anos? O computador quântico já é realidade, mas uma realidade ainda em estado bruto. É preciso aperfeiçoar diversos aspectos, movimentando uma corrida entre empresas e nações para se atingir a tão badalada “supremacia quântica”.

A isso, soma-se uma segunda grande conquista do século XXI, a Inteligência Artificial. Os experimentos com inteligência artificial remontam a década de 1950 e, mesmo com todos os investimentos e conquistas obtidas nos anos de 1980 e 1990, foi somente com o poder computacional do século XXI que atingimos resultados verdadeiramente extraordinários. Hoje, usamos programas com IA capazes de recriar fragmentos de textos antigos perdidos, diagnosticar doenças, produzir vacinas, restaurar com perfeição imagens danificadas, e milhares outras possibilidades. Entretanto, a IA ainda não é capaz de recriar um estado similar ao raciocínio humano. Ainda! (nota: este texto foi escrito antes do lançamento do ChatGPT)

A computação quântica, por si só, não traria implicações sombrias para a humanidade. A IA, isoladamente, tampouco. Entretanto, a combinação das duas seria potencialmente perigosa. O uso de Inteligência Artificial em máquinas de computação quântica nos permitirá ver um mundo que hoje sequer sabemos que existe. Aquele mundo que vemos, sentimos e experimentamos é apenas um fragmento do universo que nos cerca. Mas a IA rodada em máquinas quânticas abrirá portas para outros mundos de maneira descontrolada.

Estamos sempre nos equilibrando neste cabo dual, pendendo entre a sublime revelação da bondade maior e a nefasta face do mal absoluto. A caixa como analogia para um computador quântico parece absolutamente apropriada. Eis que das brumas do tempo emerge novamente Pandora, trazendo consigo uma caixa repleta de fios e metais, convidando-nos a dar uma espiada. E que Deus nos livre das fúrias que dali poderão emergir.

©Rodrigo Simas Aguiar | 2021 | Proibida a reprodução sem citar a fonte


Mapa do site: